A violência doméstica é um problema global que afeta mulheres de diferentes classes e contextos sociais. Estima-se que cerca de 30% das mulheres no mundo já sofreram violência física ou sexual por parceiro íntimo. No Brasil, os dados indicam alta incidência e gravidade do fenômeno, com milhares de casos de feminicídio, majoritariamente cometidos por companheiros ou ex-companheiros, além de um grande volume de registros de agressões e chamadas relacionadas à violência doméstica. Apesar da relevância do tema, grande parte dos estudos ainda o aborda de forma segmentada, seja com foco em aspectos legais, seja na descrição de panoramas regionais. Há, contudo, uma lacuna importante na compreensão dos padrões, trajetórias e dinâmicas da violência ao longo do sistema de justiça criminal, bem como nos processos de naturalização da violência, muitas vezes associados à sua transmissão intergeracional. Esse cenário se agrava em contextos como o da pandemia de COVID-19, que intensificou as dificuldades de mensuração do problema e comprometeu a formulação e implementação de políticas públicas eficazes de prevenção.